
[...] Levou-a até o Oval Hubert, palco do incidente de Jesse Owens, onde os dois ficaram parados, com as mãos nos bolsos. A pista se estendia à sua frente. Só podia acontecer uma coisa. Rudy começou.
- Cem metros - incitou-a. -Aposto que você não consegue me ganhar.
Liesel não estava disposta a engolir nada daquilo.
- Aposto que consigo.
- Você aposta o quê, Saumenschzinha? Tem algum dinheiro?
- É claro que não. Você tem?
- Não.
Mas Rudy teve uma idéia. Era o menino apaixonado vindo à tona.
- Se eu ganhar, eu beijo você.
Abaixou-se e começou a dobrar a bainha das calças.
Liesel ficou assustada, para dizer o mínimo.
- Para que você quer me beijar? Eu estou imunda.
- Eu também.
Era claro que Rudy não via razão para um pouquinho de sujeira atrapalhar as coisas. Já fazia algum tempo desde o último banho dos dois.
Ela pensou no assunto, enquanto examinava as pernas magricelas da oposição. Eram mais ou menos iguais às suas. Não tem jeito de ele me vencer, pensou com seus botões. Balançou afirmativamente a cabeça, com ar grave. Aquilo era para valer.
- Você pode me dar um beijo, se ganhar. Mas, se eu ganhar, deixo de ser goleira no futebol.
Rudy refletiu.
- Está valendo -, e os dois apertaram as mãos.
Tudo eram céus escuros e neblina, e começavam a cair umas gotinhas de chuva.
A pista era mais lamacenta do que parecia.
Os competidores se aprontaram.
Rudy jogaria uma pedra pra cima, como se fosse o tiro da partida. Quando ela batesse no chão, os dois poderiam começar a correr.
- Nem consigo ver a linha de chegada - reclamou Liesel.
- E eu consigo?
A pedra afundou feito cunha na terra.
Os dois correram lado a lado, trocando cotoveladas e procurando ficar na frente. O chão escorregadio sugava seus pés e acabou por derrubá-los, talvez a uns vinte metros do final.
- Jesus, Maria e José! -gritou Rudy - Estou coberto de cocô!
- Não é cocô, é lama - corrigiu Liesel, embora tivesse suas dúvidas. Os dois se arrastaram mais cinco metros em direção à chegada.
- Então, vamos considerar empate? - perguntou.
Rudy olhou-a, com seus dentes afiados e os olhos botocudos. Metade de seu rosto estava pintada de lama.
- Se der empate, ainda ganho meu beijo?
- Nem num milhão de anos -disse Liesel, que se levantou e sacudiu um pouco a lama do capote.
- Você deixa de ser goleira.
- Dane-se a sua goleira.
Enquanto voltavam a Rua Himmel, Rudy a advertiu:
- Um dia, Liesel, você vai morrer de vontade de me beijar.
Mas Liesel sabia.
Jurou.
Enquanto ela e Rudy vivessem, jamais beijaria aquele Saukerl desgraçado e imundo, especialmente não nesse dia. Havia assuntos mais importantes de que cuidar. [...]
[A menina que roubava livros - Markus Zusak]